A casa estava
completa, repleta de familiares. Pessoas que não se viam desde muito tempo,
resolveram utilizar o carnaval como uma desculpa para esse reencontro. Todos sofriam
do mesmo mal: solidão compartilhada. Cada um se gabava da vida traçada, do
caminho seguido, do sucesso profissional. Ao mesmo tempo, sentiam inveja dos
primos, tios, irmãos. Se essas pessoas estavam tão encaixadas socialmente, que
motivos os tiraram da diversão popular e os inseriram nesta tediosa semana de
puro jogo de imagens?
A casa de
Beto fora a escolhida por motivos óbvios: ele era o mais bem sucedido, morava
em um lugar estratégico para todos e não era casado (Justificativa
Ideológica!). Ela era a única opção para que todos ali presentes tivessem o
assunto perfeito para comentários surgidos durante o decorrer do feriadão.
A casa era
grande, mesmo com aquela quantidade de gente. As crianças brincavam no jardim
florido, os adolescentes estavam se descobrindo nos quartos do fundo e os
adultos, regrediam. Beto somente observava. Ele era filho único e, seu talento
e paixão por desenhos, desde pequeno, levou-o a seguir a profissão de
arquiteto. Tendo tudo isso em mãos, enchia a vida dos outros com construções
vazias de espírito. Orgulho dos pais!
Havia
naquela casa uma leveza capaz de fazer nascer o mais singelo amor entre os seres.
Ninguém percebia isto, somente seu dono. Beto era um galante homem e tinha
dinheiro. Por que então nunca apresentou nenhuma namorada para os pais ou não se
casou? Os familiares prendiam esta pergunta na garganta e encontravam a resposta
na mente: ele é gay!
A casa do
filho prodígio já fora palco de muitas festas regadas a álcool, orgias e amores
fragmentados. Em cada canto daquele lugar, Beto se cortava diariamente com
cacos deixados por relacionamentos passageiros. Só havia um lugar na casa que
estava intacto, inteiro: o quarto dos sonhos. Ninguém sabia de sua existência e
o arquiteto fizera questão de projetar esse ambiente bem distante e escondido.
Ali ele tomava seus remédios sem receitas para curá-lo da vida. Beto descobriu,
certa vez, o segredo divino, que a vida é uma doença.
A casa
guardava o silêncio de todos que nela se estabeleciam. Beto era somente
abandono e emoção, por isso nunca encontrou alguém que o abraçasse
inteiramente. Apaixonava-se pelo que não existia nas pessoas e lia livros
demais. Sabia discorrer sobre a vida de quem quer que se aproximasse. Dava medo
e intimidava.
Beto era
apenas alma neste mundo insano e sua casa era sua identidade, ambos se
descreviam. Sua casa tinha uma linda fachada, flores bem cuidadas no jardim,
móveis nos lugares adequados e sensações de bem estar. Mas quem morasse por lá
durante alguns meses, compartilharia de sua escuridão. Se fosse forte o
suficiente para explorá-la por mais tempo, receberia como recompensa o quarto
dos sonhos pronto para acolhe-lo de braços abertos. Igual a Beto.
- Texto para mim. Porque também mereço um.