domingo, 27 de maio de 2012

Sobre um amor retornável

sobre uma história poeticamente verdadeira.



Da vez primeira que li Drummond me fortaleci ao ponto de estar preparada para enfrentar o vendaval das férias de verão. Talvez não tenha relação nenhuma, mas o amor também estava presente e os dias caminhavam assim: Drummond, vendaval, amor e saudade.
Quando me senti mais completa, afastei o poeta de minha vida e a rotina se resumiu a saudades distantes de um amor recém plantado. Mas sem a atenção necessária, as flores daquele sentimento tão puro, murcharam. Então fui reduzida apenas ao demente vendaval que fazia definhar meu pobre coração.
Pela ausência do amor que me acompanhou durante aquele curto espaço de tempo (alguns meses, apenas!), revivi o cativante livro do Drummond empoeirado na estante e meus sentimentos foram recordados. Surpreendentemente, o amor de verão retornou.
Penso em como será quando eu terminar de ler Drummond, se meu amor de verão passará outra estação comigo ou se será arquivado junto com aquelas poesias.

- "E ouvi de amar, como um dom a poucos ofertado; ou de um crime", Drummond.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

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Estamos tão acostumados com o Mal a nos acompanhar que quando a Bondade aparece, passamos a vez.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Id


Os olhos refletem gozo
Seus seios cedem amor
A boca grita o silêncio profano
e seu corpo arde.
As palavras não existem no submundo carnal.
O sangue é o desejo proibido e o sexo animalesco comparece
ao jantar de bestas famintas e irracionais.
Gemem as mulheres de onde jorram a bebida dos deuses.
Os prisioneiros armam o circo dionisíaco.
(a libido é a única habitante deste lugar)
E seus olhos derramam lamúrias e ressaca moral
Incendiado, teu corpo implora e se vende.
(mais fácil seria a oferta imediata)

Puta vida de um humano ninfomaníaco!

domingo, 13 de maio de 2012

Auto-Explicação.

Sobre a mudança do nome do blog de Change Everything para Passageiro Sombrio.


Todos nós temos um passageiro sombrio que habita a mais escura moradia de nossos corações, correndo para nossas mentes e sendo censurado dia após dia. Ei, você que está lendo: deixe-o ser livre para que esse passageiro possa se manifestar da maneira que preferir. Acredite, vai te deixar mais leve e vai te ajudar a seguir em frente.
Da necessidade de se esconder, do medo de mostrar sua essência, do temor de uma critica externa: é disso que o passageiro sombrio se alimenta. Ele cresce e quando não se pode mais suportar, padece de libertação. Mas você o tranca, o amaldiçoa. Censura cruel.
Minhas veias e artérias são caminhos para que meu passageiro possa efetuar a sua existência e não me envergonho disso. Carrego-o comigo sempre, sobretudo nas palavras, onde a identificação imediata alcança seu ápice.


- A expressão Passageiro Sombrio foi retirada do seriado Dexter e, de uma maneira bem singular, me deixa fascinada o modo como ele é utilizado. Como se fosse uma forma de libertação da realidade, fuga de tudo que é estereotipado, de tudo que é imposto para cada individuo. Analiso isso não na forma cruel que o personagem mata cada culpado, mas sim pela necessidade que ele tem disso. Por isso as palavras são meu passageiro sombrio e não abro mão.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Imperativos

Tampe os ouvidos para que nenhuma frase desestimuladora possa passar e encontrar um lugar aconchegante dentro de ti. Feche os olhos para sentir, atenciosamente, todas as coisas boas que o mundo tem a oferecer-te. Silencie quando sua vontade for gritar com quem não mereça.
- Para minha prima Anna Gabriella.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Sinto cheiro de vida


No banquinho esquecido
A moça bonita reconstruiu-se.
E a melhor escolha veio
de um fragmento.
Pois o escuro do dia
não se promove do inteiro.





Fotografada: Stephanie

sábado, 21 de abril de 2012

O ápice


Talvez seja por isso que gosto tanto de chuva. Quando amanheço e sinto a sua presença, a fragilidade vem me fazer companhia. Não há como negar: sou fraca sempre, com ou sem chuva. Mas quando as águas caem do céu é que eu me lembro mais disso e imediatamente procuro por abrigo. Parece que me agarro com uma intensidade superior a esse meu defeito. E sorrio, orgulhosa.

domingo, 15 de abril de 2012

O segredo da poesia


É o encanto da poesia
Que me faz renascer
Todos os dias
Mais iluminado.

Encaixando fragmentos
é que se vai além do que é dito.
A essência do que não se vê:
É disso que os poetas se alimentam!

domingo, 8 de abril de 2012

A casa do arquiteto


A casa estava completa, repleta de familiares. Pessoas que não se viam desde muito tempo, resolveram utilizar o carnaval como uma desculpa para esse reencontro. Todos sofriam do mesmo mal: solidão compartilhada. Cada um se gabava da vida traçada, do caminho seguido, do sucesso profissional. Ao mesmo tempo, sentiam inveja dos primos, tios, irmãos. Se essas pessoas estavam tão encaixadas socialmente, que motivos os tiraram da diversão popular e os inseriram nesta tediosa semana de puro jogo de imagens?
A casa de Beto fora a escolhida por motivos óbvios: ele era o mais bem sucedido, morava em um lugar estratégico para todos e não era casado (Justificativa Ideológica!). Ela era a única opção para que todos ali presentes tivessem o assunto perfeito para comentários surgidos durante o decorrer do feriadão.
A casa era grande, mesmo com aquela quantidade de gente. As crianças brincavam no jardim florido, os adolescentes estavam se descobrindo nos quartos do fundo e os adultos, regrediam. Beto somente observava. Ele era filho único e, seu talento e paixão por desenhos, desde pequeno, levou-o a seguir a profissão de arquiteto. Tendo tudo isso em mãos, enchia a vida dos outros com construções vazias de espírito. Orgulho dos pais!
Havia naquela casa uma leveza capaz de fazer nascer o mais singelo amor entre os seres. Ninguém percebia isto, somente seu dono. Beto era um galante homem e tinha dinheiro. Por que então nunca apresentou nenhuma namorada para os pais ou não se casou? Os familiares prendiam esta pergunta na garganta e encontravam a resposta na mente: ele é gay!
A casa do filho prodígio já fora palco de muitas festas regadas a álcool, orgias e amores fragmentados. Em cada canto daquele lugar, Beto se cortava diariamente com cacos deixados por relacionamentos passageiros. Só havia um lugar na casa que estava intacto, inteiro: o quarto dos sonhos. Ninguém sabia de sua existência e o arquiteto fizera questão de projetar esse ambiente bem distante e escondido. Ali ele tomava seus remédios sem receitas para curá-lo da vida. Beto descobriu, certa vez, o segredo divino, que a vida é uma doença.
A casa guardava o silêncio de todos que nela se estabeleciam. Beto era somente abandono e emoção, por isso nunca encontrou alguém que o abraçasse inteiramente. Apaixonava-se pelo que não existia nas pessoas e lia livros demais. Sabia discorrer sobre a vida de quem quer que se aproximasse. Dava medo e intimidava.
Beto era apenas alma neste mundo insano e sua casa era sua identidade, ambos se descreviam. Sua casa tinha uma linda fachada, flores bem cuidadas no jardim, móveis nos lugares adequados e sensações de bem estar. Mas quem morasse por lá durante alguns meses, compartilharia de sua escuridão. Se fosse forte o suficiente para explorá-la por mais tempo, receberia como recompensa o quarto dos sonhos pronto para acolhe-lo de braços abertos. Igual a Beto.


- Texto para mim. Porque também mereço um.

domingo, 1 de abril de 2012

Incontida doença

Convivo com todos os tipos de doenças que chegam até mim nos mais inusitados momentos: ao acordar, ao terminar de ler um livro, ao sentir uma música. E não existe nenhum remédio que me cure e sequer um médico para diagnosticar essas minhas fraquezas inesperadas. Nada me alivia.
Minhas doenças são incomuns, mas, inusitadamente, podem ser encontradas no desconhecido diário que senta ao meu lado no ônibus ou no meu melhor amigo. Eles custam a entender que doenças desse tipo carregam consigo tratamentos a base de doses homeopáticas e especificas de algo inexistente.
Sofro de dores constantes de consciência e pulsações desesperadas no coração. Minhas doenças são psicológicas, tingindo minha alma de dores fortes imperceptíveis que assustam um explorador desavisado à procura de aconchego comum e satisfatório.

ps: na presença de sintomas sem classificações normais, se afaste de pessoas rotineiras, isto é contagioso e prejudicá-las trará o estrago humano. (Ou não!)